domingo, 30 de janeiro de 2011

ÉBRIOS

Os Esquecidos da Sociedade                                      

Quando seres humanos
chegam ao fundo da sua
mais vil condição eles se tornam
como se invisíveis fossem

 WALQUER CARNEIRO

O homem, na verdade um trapo humano, estava sentado no meio fio da praça,  e ao seu redor diversos trapos humanos, homens e mulheres perdidos em loucuras etílicas, ausentes de tudo.  Frascos de aguardente, restos dos restos  de comida juntada aqui e acolá. Todos juntos misturados  num bando bem aparente, ignorados devidamente por transeuntes circulantes, todavia,  ausentes da condição de desespero e loucura controlada por uma força misteriosa naqueles seres cambaleantes.

Eles confabulam  em um dialeto que só eles entendem . Ali eles dormem, urinam, defecam, se amam, se odeiam  e se matam ou vão morrendo aos poucos no sol,  na chuva.

Seus rostos são apáticos, seus sorrisos zombarias, quando choram refletem a insanidade de uma vida suportada em nada. Quando estão sérios são como  mortos,  dormindo eles não existem  e quando estão sóbrios são como zumbis a procura de mais uma porção do líquido cáustico no recipiente transparente que inebria o pensamento.




O homem sentado no meio fio da praça, num lapso de lucidez não consegue entender tamanha escravidão e o porquê daquela cerca invisível que evita  que ele usufrua da liberdade das pessoas  que ao redor passam como aparição diante de seus olhos que já não consegue se fixar longamente em nada a não ser na garrafa fazia que jaz à sua frente, então num fiapo de consciência ele delira e vê dentro  da embalagem  a ânsia do seu desejo insaciável,  e ávido ele agarra  o vidro e leva o gargalo aos beiços brancos e inchados sugando com sofreguidão como se dali saísse a fonte de sua vida, e numa irritação preguiçosa ele percebe que ali dentro apenas o ar reside, e ele detesta o ar, pois sonha com  um tempo em que tudo ao redor seja álcool, e na sua insanidade ele percebe que não dá, então com o pouco de forças que lhe resta, como vingança,  ele atira a garrafa que explode no pavimento da rua espalhando cacos por todos os lados e com um sorriso podre ele parece comemorar  vitória por destruir a causa de sua frustração, por não poder receber na sua garganta ressequida o licor tão desejado.

2 comentários:

  1. Como é triste a nossa realidade! Como é fugaz a vida desses seres humanos que estão tão próximos e ao mesmo tempo quilômetros e quilômetros de distância dos olhos da sociedade que simplesmente ignoram a existência desses perambulantes. Tenho esperança e fé em Deus que isso possa mudar um dia! E que seja breve.
    Abraços da amiga. Gabriella

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  2. Que belo texto, Walquer...
    Parabénns,.. Ele exprime esse nosso sentimento medíocre de impotencia.

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